Noite de festa

Isabel Mendinhos

Era a véspera do início da grande festa anual em honra da Senhora da Piedade.
Estava tudo preparado. Os arcos enfeitados de flores, a barraquinha das rifas, todos os anos refeita de paus e tábuas, a "barraca de chá", também construída da mesma forma, mas coberta de rama de eucalipto.
O mastro tinha sido erguido, um pau compridíssimo com uma bandeira, para que em todas as redondezas pudessem avistá-lo, tendo assim a certeza de que a festa tinha começado. Esta cerimónia era sempre acompanhada pelo estoirar dos primeiros foguetes. Assim, quem fosse de vistas curtas, podia, se não fosse surdo, receber o aviso do início dos festejos.
A nossa casa era mesmo à beira do recinto da festa, num local alto com vista larga de 360º. Aqueles dias eram de festa para a criançada como eu, mas cansativos para os adultos, com os foguetes, as bandas e a música que saía alta da instalação sonora roufenha e velha. Todos se deitavam cedo na véspera, pois o primeiro dia era marcado, às seis da manhã, por uma alvorada de morteiros. Para as crianças, naquele caso cinco meninas, era difícil dormir. Eu fora deitar-me num colchão no chão, para dar o lugar na cama a uma prima que não era da casa. Ainda não estava a dormir, quando vi a luz intensa do primeiro relâmpago pelas frinchas da janela. Pouco depois, bem forte e demorado, um trovão. As mais novas começaram logo a choramingar, que uma trovoada ali metia respeito! Nisto, abre-se a porta do quarto e oiço a voz do meu pai:
- Anda! Vamos lá a cima ver a trovoada que é uma coisa linda!
Saltei da cama num pulo e fui com ele, deixando as outras aflitas.
- Não, papá! É que depois elas ficam assustadas sem mim...